• Subprocuradoria-Geral de Planejamento Institucional

Confira a entrevista com Eugênio Scannavino Netto, fundador e coordenador da ONG Saúde e Alegria

Eugenio Scannavino Netto

Eugenio Scannavino Netto é médico sanitarista e, desde 1983, atua na cidade de Santarém, no Pará, em comunidades extrativistas na Amazônia, com a ONG Saúde e Alegria, da qual é fundador e coordenador. Também é consultor internacional em Educação Ambiental e Comunitária. Eugenio vem de uma família de classe média de São Paulo, e decidiu se aventurar na Amazônia para ajudar a população local com programas de saúde, educação, cultura, infância e juventude, inclusão digital, economia da floresta, meio ambiente e pesquisa participativa. Essas ações transformaram a vida de milhares de pessoas, e seu exemplo de empreendedor social é reconhecido em todo o mundo.

Eugenio, que esteve presente no III Encontro Paraná sem Corrupção (leia mais sobre o encontro), falou um pouco mais sobre seus projetos, sobre questões de cidadania e mobilização social e a relação com a corrupção. Confira a entrevista abaixo:

1- De que modo o seu trabalho colabora para o exercício da cidadania dos moradores da região da Amazônia?

O nosso trabalho é totalmente voltado para isso. A idéia não é fazer nada pelos cidadãos, mas dar capacidade para que oferecer instrumentos e meios para que eles possam se desenvolver. Por exemplo, no nosso caso o uso da água não tratada causava a diarréia que era uma das principais causas da mortalidade infantil. Às vezes morriam quatro ou cinco crianças em um dia na comunidade por causa da falta de cloro e da desidratação. A gente ensina a comunidade sobre a importância da água tratada, da higiene, os cuidados preventivos, mas também leva para lá água encanada e o sistema de água. Essa linha entre desenvolver e dar os meios para que a pessoa se desenvolva é muito importante, desde que não seja de maneira assistencialista.

2- Com pouco dinheiro você conseguia realmente causar uma mudança. É difícil conseguir dinheiro para o seu projeto e é difícil fazer com que as pessoas acreditem que ele pode dar resultado?
A parte mais difícil do trabalho não é estar com as comunidades lidando com os problemas. A parte mais árdua é conseguir um apoio efetivo para isso. Cerca de 80% do meu tempo hoje é para captar recursos, fazer relatórios, prestar contas e é uma coisa muito injusta. Nós estamos fazendo o que todo mundo diz que tem que ser feito ao desenvolver tecnologias sociais que geram impacto social e que gera uma redução dos custos governamentais, pois cada criança que deixa de ser internada ou que a gente atende elimina um custo enorme para o governo. Nós estamos aperfeiçoando políticas públicas, não queremos substituir o Estado. Só que nada disso é reconhecido. Não é considerado o desenvolvimento da comunidade de um modo integral. Os financiamentos são muito segmentados e você tem que se adaptar para aprovar vários pequenos projetos de diferentes setores para montar um grande projeto de desenvolvimento integral. Eu tenho 13 fontes de financiamento, com relatórios, contas, projetos e auditorias por ano. Nós estamos captando recursos externos para fazer uma coisa que o governo deveria estar fazendo. A cooperação externa também não é algo justo, porque aquele que oferece recurso o faz por interesse próprio.

3- A população hoje tem interesse para se mobilizar socialmente?
A população tem maior interesse, só não tem apoio técnico e institucional adequado. A idéia é que você estude com a população os problemas, dê um aporte institucional técnico e a população dê uma contrapartida de participação. A partir daí a própria participação da população aperfeiçoa a ação institucional e aí você cria um movimento em espiral de ação conjunta, coletiva e de luta pelos direitos. Sem isso a população está sofrendo por várias coisas, oprimida pela falta de conhecimento. Além disso, a coisa que mais estrangula a participação popular é a falta de capacidade de participar dos fóruns. É muito difícil as lideranças terem capacidade de participação independente, porque precisa viajar para participar de um fórum e não têm recursos para isso. Aí acabam sendo patrocinadas por alguém, deixando a participação pouco independente.

4- E quanto ao voluntariado, existe muita procura? Quem são as pessoas que mais procuram?

Nós temos muita procura. A gente trabalha lá porque gosta, os salários são baixíssimos, instáveis. Eu sou o coordenador e sou voluntário na minha própria instituição e tenho que correr atrás de outros tipos de consultoria. As pessoas trabalham pela camisa. Tem muita gente que quer ser voluntário, mas às vezes ele está lá muito mais para resolver um problema dele, como as pessoas que ficam lá por um mês. A pessoa vai, passa um mês, não entende bem porque ele foi. O voluntariado deveria ser um programa permanente, em que a pessoa vai, fica um mês, continua dando apoio à distância e depois volta, dando regularidade ao acompanhamento do projeto. Nós temos programa de voluntariado institucional, em que os voluntários são apoiados por intercâmbio e instituições externas e atuam durante seis meses a um ano.

Eugenio Scannavino Netto

5- De que forma a educação contribui para outras formas de mobilização social e para combater a corrupção?

A educação é tudo. A saúde é uma situação emergencial e um direito básico. Se você não resolver a questão da saúde antes, as pessoas não conseguem nem pensar em outra coisa. Quando penso na educação penso como um processo de conhecimento e de construção coletiva para a comunidade. A educação não é só transmitir o conhecimento, mas distribuí-lo. Educação é aprender e ensinar e quando essas duas vias estão abertas a pessoa acaba se engajando no projeto. Quando você participa da descoberta do conhecimento junto, você já está mobilizando e pode transformar o seu potencial.

6- De que forma a corrupção prejudica a todos e causa problemas como o abandono da população e da falta de condições?
De todas as formas. O que apodrece a ética de uma pessoa é o sistema político partidário, o poder e esse sistema de gestão pública. Na hora em que você “entra no esquema”, entra para um grupo e aquele discurso de interesse pela população passa a ser de interesse do grupo. A corrupção passa a ser transmitida para as lideranças comunitárias que se relacionam com o poder. Todos os tipos de favores são geridos pela falta de cidadania básica. Se o cara tem educação, saúde, organização comunitária, plano de desenvolvimento e andamento ele não precisa se sujeitar à corrupção.

7- A partir do ensinamento sobre cidadania e direitos a população passa a ter outro olhar, se engajar e se envolver em novos projetos?
Nosso papel é fazer os moradores se engajarem, participarem e andarem com as próprias pernas. Nosso grande objetivo é ser o fermento do bolo. Não tem cor, não tem cheiro, não tem gosto, faz o bolo crescer e quando o bolo está pronto a pessoa nem lembra que existe. Nosso grande objetivo é nos tornarmos desnecessários. As comunidades do programa se multiplicam espontaneamente. O programa passa para as comunidades vizinhas e outras pessoas se envolvem. Essa é uma linha muito tênue. Temos que saber muito bem quando não apoiar a comunidade, não ser paternalista e apoiá-los. E aprender a fazer isso é muito difícil.

8- Quantas pessoas participam do projeto atualmente e quantas são atendidas com o projeto Saúde e Alegria?
Nós cobrimos 30 mil pessoas em 150 comunidades e temos 35 pessoas para atender a todo esse público. Como são poucos técnicos a contrapartida comunitária tem que ser muito grande. Você é obrigado a formar os líderes comunitários e a gente atua apenas em áreas estratégicas para dar conta. Com o programa Paraná Sem Corrupção não vai ser diferente. Vocês vão encontrar os protagonistas na comunidade e terão que trabalhar com eles. O Ministério Público não tem que fazer, e sim apoiar os protagonistas que já fazem, e tem que ter o pé na realidade. Tem que reconhecer que quando você apóia os outros, você não faz o que você quer, mas o que todos querem. Os protagonistas não são bonzinhos, brigam entre si, têm ciúmes e o MP será um novo ator, embora já seja reconhecido. Poderá ser um mediador de conflitos entre os protagonistas. Sonhar é bom, mas é preciso dar um passo atrás do outro.
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